Como Duarte imaginava, o Prof. Otávio mentira; no boletim, constava que a última nota de Kerollainy em Geografia tinha sido três - e não quatro e meio. Aliás, o repentino surto de memória do professor já dizia tudo.
O detetive se pegou mais uma vez atento ao silêncio da escola. Parecia agora que o prédio tinha mergulhando num mutismo quase letárgico; não se ouvia sequer o mínimo ruído. Subitamente o policial tomou um susto que fez seu coração disparar. Um estrondo terrível! Era o ribombar de um trovão, ecoando com violência. Logo a seguir, despencou sobre a escola o barulho ensurdecedor da chuva, potencializado pelo silêncio, tornando-se um ruído quase indistinguível, avolumando-se num chiado angustiante. Duarte sentiu a perturbadora impressão de estar dentro de uma televisão mal sintonizada; visto daquela escola, o mundo parecia apenas uma televisão mal sintonizada. Que lugar!
Mergulhado em suas reflexões, não ouviu a chegada da diretora adjunta. Abrindo a porta, Isabel trazia agora uma mocinha bonita, que aparentava seus vinte e poucos anos - era a Prof.ª Carla, de Inglês. Mal dava para imaginar que era uma professora; devia ter acabado de sair da universidade. Carla parecia muito, muito encabulada.
Sentou-se à mesa com o olhar baixo, encarando o chão. Duarte imaginou que poderia ser uma boa informante; deixou-a em silêncio por longos minutos, mas finalmente perguntou: "E então"?! Carla continuava olhando para os quadrados de cerâmica do chão. "Não gostaria de me dizer nada"?
Com um movimento lento, quase melodramático, a professora olhou nos olhos do detetive, pronunciando um sussurro: "Não posso falar".
"Claro que pode"! Exclamou Duarte. "Deve falar! O que saberia me dizer a respeito de Kerollainy"?
Carla se encolheu, como se a tivessem espetado com uma agulha. Curvando-se ligeiramente, um tanto trêmula, falou em volume quase inaudível: "Não quero... mentir..." Seu rosto corou. "Então fale a verdade", retrucou o policial, com firmeza.
A professora respirou fundo, como se tomasse fôlego para um esforço imenso. Por fim, respondeu, sempre sussurrando, talvez ainda mais baixo: "Ela é ótima aluna"! Carla mordeu os lábios e olhou furtivamente para a porta, tensa. Duarte consultou rapidamente o boletim. "Há algum equívoco... Aqui consta que as notas de Kerollainy em Inglês foram três, cinco e meio, e quatro"!
Carla olhou novamente para a porta, como se tentasse enxergar através dela. Após longa pausa, curvou-se mais ainda; seu queixo quase encostava na mesa: "É mentira! A diretora mandou nós mentirmos"! Duarte não pôde conter uma careta de estranhamento: "Ela não pode fazer isso"! Constrangida, a professora retrucou: "Pode, sim! Ela tem... poderes... que outros diretores não têm"! "Poderes? Como assim"? "Ela é muito influente na CRE, na Secretaria de Educação..." - Carla abaixou novamente o olhar - "Eu ainda estou em estágio probatório..."
"Mas isso é assédio moral"!!! - Duarte bradou. Falou tão alto que a jovem professora tremeu de alto a baixo: "Shhhh"!
"Desculpe" - falou o detetive, voltando a seu volume normal - "Fique tranquila, só quero mais informações. Como era o Prof. Júlio"? Carla tomou fôlego novamente, e concluiu de uma vez: "Eu tenho MEDO dele! Ninguém aqui gostava dele. Ele vivia junto à Lucrécia e à Isabel, sempre fofocando, delatando todo mundo"... Com expressão um tanto risonha, acrescentou: "Alguns colegas chamam ele de 'Professor Buldogue", vigiando todo mundo"!
Duarte não segurou um sorriso. Ia fazer outra pergunta, quando ouviu um som de explosão.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Cap. 12 - O professor de Geografia
Enquanto aguardava que Isabel trouxesse o próximo entrevistado, Duarte aproveitou para dar uma olhada no quadro de horários dos professores, afixado com fita adesiva à porta de um armário. Uma rápida verificação foi suficiente para perceber que havia algo errado com as afirmações da Prof.ª Tatiana. Segundo a planilha indicava, ela e o Prof. Júlio tinham tempos vagos em comum durante três dias da semana. A escola era pequena demais para que os dois nunca tivessem contato nesses horários, especialmente na sala dos professores. Mesmo que se falassem pouco, ela deveria ter alguma opinião sobre o colega - o que, inclusive, justificaria a falta de contato. "De duas uma: ou ela está mentindo descaradamente ou, pelo menos, evitando se comprometer" - concluiu o detetive. Ambas alternativas pareciam confirmar suas suspeitas de que havia algo errado na Escola Municipal República de Genosha.
Após alguns minutos de espera, a diretora adjunta bateu na porta, conduzindo outro professor. Dessa vez se tratava de um homem em torno de seus quarenta e cinco anos, trajando roupas esportivas, apresentado como Prof. Otávio, de Geografia. Estava visivelmente agitado, piscando nervosamente os olhos.
Duarte e o professor sentaram-se à mesa. Otávio parecia uma besta acuada. O detetive resolveu que era hora de jogar duro. Durante mais de um minuto observou silenciosamente o professor, de quando em quando traçando anotações no caderno - apenas notas aleatórias, mas Otávio mostrava pequenos sobressaltos a cada vez que o policial escrevia alguma coisa. Por fim, julgando que a tensão já era suficiente, sem alterar a voz, o detetive perguntou à queima-roupa: "E então, o que vocês estão escondendo"?
O professor arregalou os olhos, gaguejando: "Q-quê"?
"Sei que estão mentindo para mim. O senhor tem ideia do quanto é grave prestar falso testemunho"?
Otávio partiu para a defensiva: "Só não quero me envolver com essa história"!
"História? Que história? Da armação"?
"Armação? Eu... eu... nem falei com a Lucrécia"!
"Lucrécia? Quem falou na Prof.ª Lucrécia? A carapuça está servindo"?! - Otávio engoliu em seco, com um olhar suplicante; sempre calmo, o detetive prosseguiu: "Do que vocês todos estão com medo aqui"?
Numa súbita explosão, o professor pôs-se de pé: "Agora chega! Não vou ficar aqui ouvindo essas calúnias! Só falo na presença de um advogado"!
Duarte sorriu: "Calma, calma... Não precisamos desse nervosismo todo. Quero fazer apenas uma pergunta, depois o senhor pode ir embora tranquilamente". Em tom de ansioso alívio, como se prestes a escapar da jaula de um leão, o professor respondeu: "Diga, então! Estou com alunos lá em cima"...
Após breve pausa, o detetive perguntou: "Qual foi a nota de Kerollainy em sua disciplina no último bimestre"? Depois de alguns segundos hesitante, o professor respondeu: "Foi... quatro e meio"! Duarte anotou a resposta em sua caderneta. Em seguida, sorriu ironicamente: "Que boa memória"! Otávio enrubesceu como um tomate maduro: "Se... se isso é tudo... vou andando pra minha sala"! Sem dar tempo ao detetive, Otávio fugiu da sala dos professores como uma criança travessa...
Após alguns minutos de espera, a diretora adjunta bateu na porta, conduzindo outro professor. Dessa vez se tratava de um homem em torno de seus quarenta e cinco anos, trajando roupas esportivas, apresentado como Prof. Otávio, de Geografia. Estava visivelmente agitado, piscando nervosamente os olhos.
Duarte e o professor sentaram-se à mesa. Otávio parecia uma besta acuada. O detetive resolveu que era hora de jogar duro. Durante mais de um minuto observou silenciosamente o professor, de quando em quando traçando anotações no caderno - apenas notas aleatórias, mas Otávio mostrava pequenos sobressaltos a cada vez que o policial escrevia alguma coisa. Por fim, julgando que a tensão já era suficiente, sem alterar a voz, o detetive perguntou à queima-roupa: "E então, o que vocês estão escondendo"?
O professor arregalou os olhos, gaguejando: "Q-quê"?
"Sei que estão mentindo para mim. O senhor tem ideia do quanto é grave prestar falso testemunho"?
Otávio partiu para a defensiva: "Só não quero me envolver com essa história"!
"História? Que história? Da armação"?
"Armação? Eu... eu... nem falei com a Lucrécia"!
"Lucrécia? Quem falou na Prof.ª Lucrécia? A carapuça está servindo"?! - Otávio engoliu em seco, com um olhar suplicante; sempre calmo, o detetive prosseguiu: "Do que vocês todos estão com medo aqui"?
Numa súbita explosão, o professor pôs-se de pé: "Agora chega! Não vou ficar aqui ouvindo essas calúnias! Só falo na presença de um advogado"!
Duarte sorriu: "Calma, calma... Não precisamos desse nervosismo todo. Quero fazer apenas uma pergunta, depois o senhor pode ir embora tranquilamente". Em tom de ansioso alívio, como se prestes a escapar da jaula de um leão, o professor respondeu: "Diga, então! Estou com alunos lá em cima"...
Após breve pausa, o detetive perguntou: "Qual foi a nota de Kerollainy em sua disciplina no último bimestre"? Depois de alguns segundos hesitante, o professor respondeu: "Foi... quatro e meio"! Duarte anotou a resposta em sua caderneta. Em seguida, sorriu ironicamente: "Que boa memória"! Otávio enrubesceu como um tomate maduro: "Se... se isso é tudo... vou andando pra minha sala"! Sem dar tempo ao detetive, Otávio fugiu da sala dos professores como uma criança travessa...
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