terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Cap. 11 - A professora de Artes Visuais

Enquanto Levinson saía, Duarte percebeu a Prof.ª Isabel trazendo uma outra professora. Era uma senhora bonita, bem conservada e bem arrumada, apesar de um penteado um tanto peculiar. A diretora adjunta explicou: "Como o senhor queria falar com os professores da turma 1702, resolvi ir adiantando! Essa é a Prof.ª Tatiana, que leciona Artes Visuais". Após os devidos cumprimentos, o detetive conduziu a professora ao interior da sala dos professores, onde sentaram à mesa.

Duarte percebeu que Tatiana mostrava um semblante calmo, mas os gestos nervosos das mãos traíam o quanto essa tranquilidade era encenada.

"E então, a senhora diria que a Kerollainy é uma boa aluna"?

"Na minha aula ela não dá trabalho".

"E o comportamento dela com os outros professores"?

"Não faço ideia" - respondeu Tatiana atabalhoadamente.

"Nem em relação ao Prof. Júlio? Parece que eles tinham alguns aborrecimentos"...

"Não tenho ideia".

A professora permanecia esquiva. O policial logo percebeu que não obteria grande coisa com essa entrevista. Tentou uma última sondagem:

"A senhora gostava do Prof. Júlio? Como ele era"?

Tatiana fez menção de falar, mas hesitou por um átimo de segundo. Por fim, respondeu: "Nunca tivemos muito contato. Nossos horários não costumavam bater". Duarte fez uma breve anotação em sua caderneta. A professora olhou teatralmente para seu relógio de pulso: "Já acabamos"? Resignado, Duarte dispensou-a com uma rápida despedida.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Cap. 10 - Um menino de coragem

Levinson continuava de pé, ofegando como uma fera acuada, ainda um tanto aturdido do ataque inesperado. Havia um bebedouro de galão no canto da sala dos professores. Duarte serviu ao menino água gelada em um copo descartável e ajeitou as cadeiras derrubadas na confusão, convidando o aluno a sentar-se novamente.

Após um profundo suspiro e uma pausa um tanto dramática, Levinson encarou o detetive com um olhar agoniado e repetiu: "É tudo mentira, tio"! O policial dirigiu ao garoto um sorriso encorajador e pediu: "Me conte a verdade, então. Kerollainy realmente empurrou o professor"? O menino olhou para o chão, constrangido, e sacudiu a cabeça afirmativamente, em silêncio. "Então qual é a mentira"?

"A Kerollainy, ela não é uma aluna ruim, não é bagunceira. Ela é amiga da Jessilaine". "Jessilaine"? "Minha irmã, elas estudam na mesma turma. A Kerollainy é muito estudiosa, só tira nota boa. Ela é toda quietinha, sabe. Esses moleque tavam mentindo porque a diretora mandou. Ela disse que a gente tinha que falar isso, senão ia expulsar a gente. Falou também que se a gente não mentisse pra você, ia botar a gente nesses negoço aí de desacato ao professor público". "Ao funcionário público", corrigiu o detetive. "Isso, essas parada aí, tio! Esses moleque são tudo cagão"! "Você é muito corajoso. Parabéns, é uma grande virtude".

Levinson ficou encabulado com o elogio. Um tanto tímido, falou: "Tio, a Kerollainy é legal pra caramba! Ela é a melhor amiga da minha irmã. Ela vai quase todo dia lá em casa pra estudar com a Jessilaine. A Jessilaine é meio burrinha, sabe? Mas aí a Kerollainy ajuda ela, porque ela é muito esperta. Eu fico lá junto com elas conversando. Eu acho ela linda demais"... Duarte logo percebeu que Levinson tinha uma quedinha pela menina, mas não estava mentindo. Se quisesse enganar o detetive, teria desmentido o empurrão na escada.

"Me disseram que ela tinha problemas com o Prof. Júlio", provocou o policial. "Ele perseguia a Kerollainy, tio! De graça, ele sempre arrumava um caô pra botar ela de castigo depois da hora. Dizia que ela tava falando na hora da aula. Aqui a gente não pode falar nada, nada! Geral fica até com medo de fazer pergunta e ir pro castigo! Aí ele sempre inventava que tava ouvindo a Kerollainy. Ele faz isso também com a Maria Eduarda, da minha turma". "Você também é aluno do Prof. Júlio"? "Ele dá aula pra minha turma, sim. Dava aula"... "Você acha que ele era um bom professor"?

Levinson fez uma careta de desaprovação: "Ruinzão! A aula dele é chata pra caaa...raca. Ninguém aprende nada com ele. E ele ainda fica ensinando parada de igreja que não tem nada a ver". "Coisas de igreja"? "É, negoço de Ave Maria, Pai Nosso; todo mundo tem que rezar no começo da aula. Pô, eu não gosto disso, não. A gente somos crente lá em casa. Uma vez ele passou um trabalho que a gente tinha que fazer lá uma cruz, com aquelas parada de ângulo reto, essas coisa assim, mas tinha que depois colar um desenho de Jesus em cima, assim. Aí eu não fiz e ele me deu zero". Duarte se perguntava que parte da escola laica era tão difícil entender; sua ex já tinha falado de situações assim na escola onde trabalhava.

"Você gosta de estudar aqui, Levinson"? "Eu?! Não! Eu gostava da minha escola antiga, a tia era muito legal. Mas aí minha mãe arrumou vaga aqui, dizem que é a escola melhor do bairro, mas eu acho uma droga! Não pode fazer nada, essa diretora é cheia de história pra cima da gente! Ela grita com os aluno, grita com os professores! A dona Isabel também é chatona. No começo do ano tinha um professor maneirão, o Prof. Gilson, de História. Mas aí ele brigou com a Dona Lucrécia e foi embora, ela nem deixou ele se despedir da gente. Ela disse que ele ia ser mandado embora, porque ela mandou lá na CRE demitirem ele. Mas é caô, porque o meu vizinho estuda lá numa outra escola, a Roberto Gomes, que tem lá do outro lado da linha do trem. Aí ele tá dando aula lá. Sorte deles".

Duarte agradeceu ao menino e ofereceu mais um copo d`água, que ele tomou lentamente, em silêncio. Levinson se levantou e caminhou até a porta. Parou por um instante, e voltou-se para o policial: "Tio, a Kerollainy vai pra cadeia"? Duarte olhou seriamente para o menino, sentindo o peso do universo sobre o peito: "Não sei. Não sei... Espero que não".

Lágrimas silenciosas rolaram pelo rosto de Levinson. O garoto saiu sem se despedir.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cap. 9 - As testemunhas

Duarte entrou na sala dos professores. Três meninos estavam sentados à mesa, muito quietos. Um deles era bem baixinho e mirradinho; trazia a expressão um tanto emburrada, enquanto seus colegas aparentavam grande nervosismo. O detetive cumprimentou silenciosamente os meninos, acenando com a cabeça. Antes de se sentar para a conversa, percorreu as paredes da sala, examinando os curiosos papéis afixados nos murais, que diziam bastante sobre a vida naquela escola.

Sentou-se, com expressão muito séria. A melhor coisa a fazer ali seria deixar os meninos falarem livremente; a verdade iria emergir sem grande dificuldade, imaginou. O detetive e os alunos se apresentaram rapidamente. O menorzinho emburrado se chamava Levinson, e estudava no 6.º ano; outro era gorducho, se chamava Pedro Henrique e estava no 7.º, na mesma turma de Kerollainy, 1702; o terceiro era Maicon, estudante do 9.º ano.

Duarte sorriu ambiguamente: "Sou todo ouvidos, meninos". Quase um minuto de tenso silêncio se passou até que Pedro Henrique disparasse: "Foi a Kerollainy, seu guarda! Foi ela que empurrou o Prof. Júlio da escada!"

"Foi mermo, detetive! A gente viu tudo, né"? - acrescentou Maicon - "Arrente távamo no corredor, entrano nas sala, aí ela impurrô o professor"!

Pedro Henrique interrompeu: "Mas antes eles tavam falando umas paradas, tipo assim, conversando! Aí a Kerollainy ficou toda nervosinha e empurrou o professor"! Levinson estava quieto, aparentemente ficando cada vez mais irritado; Duarte reparou o quanto sua fisionomia ainda era infantil.

"Aí o professor foi se estabacano da escada, bateno tudo, tudo! Aí arrente desceu correno pra ver como é que ele tava. Aí juntou o galerão em volta pra olhar. Eu nem consegui ver a cara dele, falaro que tava bizarro! Aí do nada chegou a diretora gritano parrente, aí saiu geral correno" - complementou Maicon.

Pedro Henrique encerrou o relato: "Depois que o Prof. Júlio caiu, a Kerollainy continuou lá em cima da escada, paradona, com a cara meia estranha". Duarte observou atentamente a expressão dos três. Maicon e Pedro Henrique pareciam exaustos, como se tivessem acabado de completar uma maratona. O pequeno Levinson parecia a ponto de explodir. Após breves instantes de reflexão, o detetive resolveu seu próximo passo:

"Como é o comportamento dessa Kerollainy? Ela é boa aluna"? Maicon e Pedro Henrique ficaram visivelmente tensos, e trocaram um olhar indeciso; Pedro Henrique tomou a iniciativa novamente: "Não é não, seu guarda! Essa menina não quer nada, fica só de fofoquinha e de malcriação com os professores". Maicon concordou: "É, ela fica respondeno os professores, vive de cartigo"! "Ela não estuda, não copia matéria, não faz trabalho, só tira nota ruim...", prosseguiu Pedro Henrique.

Maicon abria a boca para falar alguma coisa, quando foi interrompido por um grito: "Tudo mentira, tio! Não acredita neles, não"! A reação de Levinson foi exatamente aquela imaginada por Duarte.

"Cala a boca, moleque"! - repreendeu Pedro Henrique, seguido por Maicon: "Tá maluco, neguim"?! Os dois pareciam aterrorizados.

"Tô maluco nada, seus mentiroso! Eu num tenho medo dessa mulé, não, seus viadinho! Ainda vou falar um palavrão pra ela"! - Levinson berrava exaltado - "Eu odeio essa escola"!

Pedro Henrique dirigiu um olhar quase suplicante ao detetive: "Ele tá de palhaçada, seu guarda! Esse moleque é maluco"! Quase paralisado de pânico, Maicon suava em bicas, apesar do ar condicionado.

"Tio, me ouve, por favor! Eu tô falando a verdade! A Kerollainy é nerd, ela é amiga da minha irmã! Foi a diretora que mandou a gente mentir, tio! A Kerollainy só tira notão"! - Levinson olhava o detetive no fundo dos olhos, exibindo a coragem dos justos. Nesse momento, Maicon saiu subitamente de sua imobilidade. "Calaboca"!!! O rapaz do 9.º ano se abateu violentamente sobre Levinson; os dois caíram no chão, se engalfinhando! Pedro Henrique olhava atônito, com olhos do tamanho da lua.

Duarte agiu rapidamente, agarrando Maicon pelo braço e erguendo-o do chão; caindo em si, o garoto começou a chorar desesperado. Levinson se levantou enfurecido, com a blusa rasgada, pronto para atacar o colega mais velho. O policial estendeu a mão em sua direção: "Chega, Levinson! Está tudo bem. Maicon e Pedro Henrique, saiam, por favor. Quero conversar sozinho com o Levinson".

O detetive abriu a porta com um gesto convidativo; os dois meninos se retiraram com ar derrotado. Maicon chorava copiosamente, murmurando: "Minha mãe vai me arrebentar"... Duarte fechou a porta. Levinson ainda estava parado de pé, ofegante. "Pronto, meu caro. Agora, vamos ouvir a sua versão da história"!

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Cap. 8 - Menina má

Duarte acabara de retornar ao pátio interno quando a Prof.ª Isabel, diretora adjunta vinha a seu encontro. "Aqui está a ficha da culpada! A Prof.ª Lucrécia pediu para lhe entregar".

O detetive encarou Isabel por alguns segundos: "A senhora quis dizer suspeita, não? Todos somos inocentes até que se prove o contrário". A diretora adjunta corou, mas retorquiu: "De qualquer modo, aqui está a ficha completa da suspeita, com o caderno de ocorrências da turma dela". Duarte apanhou o caderno e o envelope de papel pardo onde se lia a esferográfica, em caracteres de imprensa: "KEROLLAINY DOS SANTOS". Isabel olhava com sua postura mais ereta que uma régua escolar enquanto ele abria o envelope, de onde retirou um formulário com os dados da aluna.

O policial fez uma rápida leitura das informações mais relevantes. "Nome completo: Kerollainy dos Santos; Data de nascimento: 27/02/2001; Cor: Parda; Filiação - Mãe: Marina dos Santos; Escolaridade: Ensino fundamental incompleto; Profissão: Vendedora; Pai: José Carlos dos Santos; Escolaridade: Ensino fundamental incompleto; Profissão: Pedreiro". Uma foto 3x4 tirada alguns anos antes mostrava uma adorável menininha sorridente, com um dente de leite faltando.

O detetive prosseguiu abrindo o caderno onde as ocorrências de indisciplina da turma 1702 deveriam ser registradas. Os nomes dos alunos encimavam as folhas em etiquetas impressas, seguindo a ordem de chamada. As páginas se encontravam rigorosamente em branco, o que não espantava, numa escola onde o medo era regra. A única exceção era a ficha de Kerollainy, onde diversas ocorrências escritas com a mesma caligrafia e a mesma caneta recheavam duas páginas e meia. Registros como:

"15/03/13
A aluna desrespeitou o professor durante a aula.
Prof. Júlio - Matemática"

"10/05/13
A aluna se recusou a obedecer uma ordem do professor, desacatando-o e rindo.
Prof. Júlio - Matemática"

"23/05/13
A aluna desrespeitou a autoridade do professor durante a aula.
Prof. Júlio - Matemática"

E mais dezessete ou dezoito variantes do tema, sempre assinadas: "Prof. Júlio - Matemática".

"Parece que ela só tinha problemas com o Prof. Júlio", comentou casualmente o detetive.

"Sim, de fato".

"Mas não era um dos 'melhores' professores da escola? Temido por todos os alunos?"

Isabel gaguejou: "S-sim, mas há exceções. Essa menina é particularmente... terrível".

Duarte sorriu, intrigado. Nesse momento notou que havia outra folha no envelope. Era um boletim escolar. A frequência de Kerollainy era impecável, nenhuma falta no ano inteiro. Já as notas eram bastante ruins, sempre baixas. Em Matemática seus resultados eram particularmente ruins: 2,5 (primeiro bimestre), 4,5 (segundo bimestre) e 3,0 (terceiro bimestre).

Mas o detetive tinha uma sensação estranha, mas logo se deu conta. O papel. Estava quente. "Acabou de sair da impressora", refletiu Duarte, franzindo levemente o cenho.

Isabel pigarreou: "As testemunhas estão prontas, aguardando na sala dos professores. Quando o senhor quiser..."

sábado, 23 de novembro de 2013

Cap. 7 - A sala dos Castigos

Saindo da sala da diretora, Duarte fez um breve reconhecimento do primeiro andar. Desembocavam no pátio interno o corredor conduzindo à direção e à sala dos professores, as portas da sala de informática e do auditório, os banheiros de alunos e a entrada do refeitório, que conduzia à cozinha. Num dos cantos, um corredor levava ao pátio externo, enquanto dos dois lados havia escadas para o segundo andar; ao pé de uma das escadarias jazia o corpo do Prof. Júlio, em seu afogamento a seco. O detetive abriu sua caderneta e esboçou rapidamente uma planta baixa do térreo. Logo em seguida, tomou a escada (sem cadáver) para o andar superior.

Os corredores estavam vazios, excetuando as reproduções de quadros famosos que pareciam infestar obsessivamente todas as paredes daquela escola, como se a arte de pintores ilustres objetivasse ocultar alguma coisa. Aqueles quadros eram máscaras atrás das quais a escola inteira se escondia. Todas as salas de aula tinham suas portas fechadas, exibindo apenas uma plaquinha numerada. Atrás de cada porta se ouvia apenas a voz abafada de um professor falando a uma turma de alunos mudos. O silêncio povoado por sussurros fazia Duarte se perguntar se era um vivo contemplando um mundo de mortos, ou um morto isolado do mundo dos vivos. Os corredores não tinham nenhuma janela, sendo inteiramente iluminados por lâmpadas elétricas. Era o tipo de ambiente que rouba algumas camadas de solidez à realidade.

Chegando a uma curva do corredor, Duarte percebeu uma porta entreaberta, cuja placa dizia: "Sala dos Castigos". O detetive espiou pela fresta, e viu que a sala tinha apenas uma mesa com meia dúzia de cadeiras em volta. Um menino de seus doze anos estava sentado à mesa, escrevendo alguma coisa freneticamente. Resolveu entrar: "Oi, tudo bem"? O menino lhe dirigiu apenas um olhar ressabiado, logo retomando sua atividade. Aproximando-se, o policial pôde perceber o que o garoto fazia: várias folhas exibiam cópias apressadas do Hino Nacional. O único adorno da sala era um cartaz em cores patrióticas, que dizia: "SEM ORDEM, NÃO HÁ PROGRESSO".

"Está de castigo"?
Assustadiço, o menino apenas balançou a cabeça afirmativamente.
"O que houve"?
"Eu falei".
"Vocês aqui não podem falar?"
O garoto balançou a cabeça, confirmando novamente.
"Nunca?! Vocês não podem fazer perguntas aos professores"?
"A gente pode. Mas todo mundo tem medo".
"Medo de quê"?
O menino baixou os olhos.
"Da diretora Lucrécia"?
O aluno fez que sim, sem erguer a cabeça.
"Ela é muito brava"?

O garoto olhou nos olhos do detetive por alguns segundos e então, lentamente, passou o dedo em riste sobre o pescoço, como se o estivesse cortando. Depois, como se nada tivesse acontecido, retomou sua frenética tarefa. Quantas cópias do hino ainda faltavam?

O silêncio e o medo são grandes amigos.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Cap. 6 - O diálogo do detetive

Assim que Lucrécia terminou sua arenga, Duarte abriu seu caderninho de anotações, pegando um lápis. "Gostaria de fazer algumas perguntas, Sr.ª Diretora..."

A velha senhora sorriu misteriosamente antes de responder: "Já pegamos a culpada".

"Como"?! - exclamou o detetive, com uma mistura de surpresa e incredulidade estampada na face.

"Kerollainy dos Santos. Sétimo ano. Turma 1702. Como eu disse, ninguém me escapa nessa escola. Quando o senhor desejaria interroga-la"?

"Gostaria antes de fazer umas perguntas. Sobre o Prof. Júlio. Como era a relação dele com os colegas e com os alunos"?

Contrariada, respondeu a diretora: "Todos o respeitavam muito. Mas qual a importância disso? Já sabemos quem é a assassina"!

"Já chegaremos lá. A senhora o considerava um bom professor"?

"Certamente! Era bem rígido, impunha respeito aos alunos, ensinava a ser cidadãos. Também ia sempre à igreja, passava valores cristãos para as crianças".

"E a Matemática"?

"Perdão"?

"Ele era professor de Matemática, certo? Os alunos aprendiam Matemática com ele"?

A diretora corou levemente (de raiva?): "Ele era um ótimo professor".

"Vamos então à menina. O que a leva a crer que se trata da culpada? Ainda nem confirmamos se foi um assassinato".

"Três alunos estavam no corredor de cima e viram quando Kerollainy empurrou o Júlio do alto da escada".

"Pode ter sido um acidente".

"NÃO FOI! Essa menina não vale nada! Uma pivetinha"!

"Ela tinha problemas de relacionamento com o Prof. Júlio"?

"Há! Vou achar a ficha dela para lhe mostrar. E então, vai interroga-la"?

"Apenas na presença dos responsáveis. Já foram chamados"?

"Estamos tentando falar com eles. Por enquanto, a menina está incomunicável na sala de informática".

"Enquanto aguardo, gostaria de falar com as testemunhas e com os professores da menina que estejam aqui presentes. Mas antes quero dar uma olhada na escola".

"A Prof.ª Isabel irá acompanha-lo".

"Prefiro ir sozinho, obrigado"! - concluiu Duarte enquanto se erguia da cadeira.

sábado, 16 de novembro de 2013

Cap. 5 - O monólogo da diretora

Duarte se sentou em frente à mesa da diretora. O gabinete era um ambiente asséptico - quase ascético, na verdade. As paredes eram brancas, exibindo apenas quadros com reproduções de paisagens famosas. Num canto, uma estante de livros, impecavelmente arrumada. No centro, a mesa da diretora, sobre a qual repousavam pilhas de papel perfeitamente ordenadas, um porta-lápis, uma régua, uma pequena calculadora, um telefone e uma Bíblia. E também um prato de sobremesa com doce de abóbora.

A velha senhora sentou-se de frente para o detetive, ereta em sua cadeira, numa postura quase estática - ou extática, talvez. Durante alguns segundos contemplou silenciosamente o detetive, com um olhar aguçado, como se tentasse ler seus pensamentos; ou melhor, como se esperasse controla-los. Ao contrário da diretora adjunta, Lucrécia vestia-se com elegância praticamente monástica.

O detetive não demorou a perceber que a diretora pertencia ao gênero de pessoas que desejam ter absoluto controle sobre todas as situações, ou ao menos precisam ter a ilusão de domina-las. O tipo de gente que não aceita a mínima contrariedade. Num primeiro momento, concluiu o policial, seria melhor agir como se ela fosse realmente a dona do jogo; ela cooperaria melhor se não sentisse ameaçado seu poder sobre aquela escola.

Assim sendo, aguardou por quase um minuto, até que Lucrécia iniciasse seu breve monólogo, articulando as palavras em tom pausado e firme:

"Antes de tudo, senhor detetive... - Duarte? - gostaria de esclarecer algumas coisas. Essa não é uma escola comum. Não é uma escola municipal como qualquer outra. Essa é a MELHOR escola da nossa CRE; uma das melhores escolas em TODA a rede municipal. Temos as melhores notas, os maiores índices de aprovação. A Secretaria de Educação reconhece a qualidade do nosso trabalho. Dirijo essa escola há nada menos que vinte e três anos. Vinte e três anos! Me orgulho - e MUITO! - do que construí aqui durante esse tempo.

Minha escola é uma escola de VALORES. Aqui formamos cidadãos. Transformamos essas crianças pobres em cidadãos de verdade. COMIGO elas aprendem a respeitar as autoridades. Transformamos potenciais bandidos e viciados em pessoas de bem. Não toleramos erros. Não toleramos IMORALIDADE. Todos aqui obedecem as REGRAS.

Podem me chamar de elitista. Podem me chamar de racista. Podem me chamar de linha dura. Não me importo. É assim que eu sou.

O mesmo vale para os professores. Professor vagabundo não trabalha aqui. Não se cria comigo. Ou tem compromisso com o trabalho, ou vai embora. É por isso que NUNCA temos problemas nessa escola. Nossa disciplina é rígida, mas FUNCIONA. O senhor não encontrará muitas escolas assim na rede. Não vai mesmo!

Quero que o senhor preste MUITA atenção ao que vou lhe dizer agora. O que aconteceu hoje, esse... incidente... é um caso isolado. Estamos tão perplexos quanto o senhor. Mas fique certo de uma coisa: a responsável será punida! NINGUÉM faz uma coisa dessas na MINHA escola e escapa impune"!

Duarte se sentiu tratado como se fosse um dos alunos da Escola Municipal República de Genosha. Precisou segurar sua vontade de rir.

sábado, 9 de novembro de 2013

Cap. 4 - Costas quentes

Duarte sentou em uma cadeira no corredor em frente ao gabinete da diretora, enquanto aguardava que terminasse seus telefonemas. Aproveitou aqueles momentos para observar o ambiente. Decididamente era uma escola estranha. O silêncio nervoso, sublinhado por murmúrios incompreensíveis, comunicava uma impressão fantasmagórica ao detetive. Era um silêncio de cemitério, mas cemitério mal-assombrado...

O corredor que dava acesso do pátio interno às salas da direção, coordenação e de professores era duplamente bloqueado por um balcão e um biombo de madeira. Aos alunos era vedado não apenas transitar naquele espaço, mas também enxergá-lo. Contudo, como bem observou Duarte, o biombo era posicionado estrategicamente, permitindo que os professores observassem o pátio sem ser vistos.

"Os estudantes nunca sabem quando estão sendo vigiados ou não", refletiu o detetive. Lembrou-se de um livro que tinha lido, Vigiar e punir, de Michel Foucault. "Uma escola panóptica! Então, os garotos são vigiados... e punidos"?! O estranho silêncio começava a fazer sentido...

O detetive voltou então sua atenção à parede em frente, onde havia um mural coberto de fotografias. Quase uma centena, segundo a estimativa de Duarte. O policial se levantou para ver as fotos de perto. Uma mulher aparecia literalmente em todas elas. Era sem dúvida a Profª Lucrécia, diretora da escola. Em muitas das fotos figurava a seu lado Isabel, a diretora-adjunta. Outro rosto constantemente estampado nas imagens era o do recém-falecido Prof. Júlio. Duarte se lembrou do comentário de Isabel; o professor era, evidentemente, muito próximo da direção.

No entanto, as fotografias também exibiam muitos ilustres visitantes. Ali estavam, sem falta, os prefeitos do Rio de Janeiro nos últimos vinte anos, sempre sorridentes ao lado da diretora. Duarte também pôde reconhecer algumas secretárias de Educação, de que se lembrava devido à ex, que lecionava numa escola municipal. O mural evidenciava não apenas que Lucrécia tinha relações importantes, mas que fazia questão de deixar isso muito claro para seus funcionários. Simples narcisismo ou estratégia de intimidação?

Perdido em seus pensamentos, Duarte não reparou a porta do gabinete se abrindo. Ouviu apenas o barulho estridente de uma colher se chocando nervosamente contra um prato. À porta, com uma postura arrogante, encontrava-se a mulher das fotos, a diretora. Com ar autoritário, dirigiu-se ao detetive: "O senhor gostaria de doce de abóbora"?

domingo, 3 de novembro de 2013

Cap. 3 - O cadáver do professor

Guiado pela Prof.ª Isabel, Detetive Duarte logo chegou ao pátio interno onde estava o cadáver, ao pé da escada da qual degringolara horas antes. Dois guardas municipais vigiavam o corpo, coberto por uma estranha mortalha: um grande pedaço de TNT azul, decorado com peixinhos e letras de EVA que diziam: "VIVA A NATUREZA!!!". Um dos inconvenientes de se morrer numa escola...

Duarte se apresentou rapidamente aos guardas e se abaixou ao lado do cadáver; levantando parcialmente a mortalha improvisada, o detetive pôde ver o rosto terrivelmente contundido pela queda. Percebia-se que era um homem de seus quase quarenta anos, com alguns fios grisalhos em meio aos cabelos pretos. O pescoço estava completamente retorcido e inclinado em ângulos quase sobrenaturais. A mandíbula fraturada e deslocada deixava a boca entreaberta com uma expressão grotesca, começando a exalar um odor desagradável da putrefação que iniciava nas entranhas do professor. Um corte superficial riscava a testa e parte do couro cabeludo; estranhamente pouco sangue escorrera dali; em condições normais, o ferimento teria banhado o cadáver, o chão... tudo, enfim. Duarte se perguntava se a torção do pescoço teria dificultado o fluxo sanguíneo para a cabeça; mas cabia ao legista responder essa questão. Quando chegariam os peritos?

O detetive cobriu novamente o rosto torturado. Se ergueu e, após alguns segundos de reflexão, perguntou a Isabel: "E então, Prof. Júlio lecionava Matemática, não é"?

"Sim..." respondeu a professora, acrescentando após alguns segundos: "Um de nossos melhores professores. Os alunos tinham muito medo dele..."

"Medo?! E isso é bom?" - estranhou o detetive.

"Os alunos precisam respeitar as autoridades, detetive".

"Me desculpe discordar, mas medo e respeito são coisas diferentes".

"Será?" - retorquiu a diretora adjunta. E então, após longos segundos de silêncio, com ar misterioso, ergueu o indicador. "Por favor, ouça, detetive..."

Duarte prestou atenção. Não ouvia nada. Fechou os olhos, concentrando-se. Começou a perceber um ligeiro murmúrio, um som abafado, contido, quase além dos limites da audição. Na melhor das hipóteses, um zumbido confuso. O silêncio não era tão absoluto quanto pensava. Não pôde conter sua surpresa: "Os alunos ESTÃO em sala de aula"?!?

Com um sorriso triunfante, a diretora adjunta redarguiu: "Não é linda a música da disciplina?"

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cap. 2 - Detetive Duarte

O detetive Duarte, da Polícia Civil, chegou à Escola Municipal República de Genosha por volta de 9 da manhã. Foi recebido na porta pela D.ª Maria, da Comlurb, que foi rapidamente chamar a diretora adjunta.

Duarte lançou um rápido olhar pelo ambiente, para sentir como era a escola. O espaço físico era excepcionalmente bem conservado. O pátio externo era muito amplo, suas paredes bem cuidadas, não se vendo uma pichação, ou sequer sujeira. As paredes situadas sob a arcada eram decoradas com reproduções de quadros de Rugendas, Debret e Eckhout, além de algumas paisagens europeias. Havia ainda alguns trabalhos de alunos, geralmente imitações de obras de arte famosas; eram bem feitos, mas não mostravam qualquer expressão criativa.

O detetive também percebeu alguns cartazes com mensagens voltadas para os alunos: "A ordem traz o progresso"; "Disciplina - Chave para o sucesso"; "Aluno bom é aluno quieto". Um deles, maior que os outros, estampava: "O Silêncio é ouro", exibindo a imagem estilizada de uma menina com o dedo estendido sobre os lábios.

O último cartaz despertou a atenção de Duarte para um fato anômalo: a escola se mantinha no mais absoluto silêncio. Um silêncio denso, quase palpável. "Que estranho!", pensou, "Onde já se viu uma escola sem barulho, assim?!". Sua ex-mulher era professora, e, pelo que se lembrava, ela sempre se queixava justamente do barulho insuportável. No entanto, logo concluiu que os alunos tinham sido dispensados devido ao crime.

Nesse instante, chegava a Prof.ª Isabel, diretora adjunta. Era uma mulher de meia idade, empertigada e empetecada, vestido com elegância um tanto exagerada para o ambiente escolar; parecia trajada para uma ocasião muito formal. Caminhava com um ar de superioridade arrogante. Duarte supôs que devia ser uma pessoa insuportável.

"Bom dia!" - cumprimentou a professora. "Infelizmente, a Profª Lucrécia, nossa diretora, está ocupada fazendo ligações para a nossa CRE* e para a Secretaria de Educação. Ela poderá recebe-lo daqui a pouco, mas pediu para lhe avisar que, se o senhor quiser, tem doce de abóbora no refeitório".

"Não, obrigado; acabei de tomar café no caminho pra cá..." respondeu Duarte, enquanto imaginava que aquela seria uma diligência longa e irritante.

*CRE - Coordenadoria Regional de Educação

domingo, 27 de outubro de 2013

Cap. 1 - A morte do Professor Júlio

CRAC!

O pescoço do Prof. Júlio fez um barulho medonho quando ele caiu da escada, estatelado no chão do pátio.

Alunos e funcionários da Comlurb correram para o pé da escada, assustados. Um murmúrio de horror percorreu o grupo. Uma aluna do 6º ano vomitou na hora; um menino do 9º desfaleceu. Cláudio, da Comlurb, tentava afastar as crianças, enquanto Dona Maria, veterana da limpeza, foi chamar a diretora.

Passado o susto, alguns alunos tentavam filmar e fotografar o cadáver com seus celulares - pois era óbvio que o Prof. Júlio estava morto. Durante a queda seu pescoço se deslocara de modo horrendo, numa torção impossível de quase cento e oitenta graus. Seu maxilar fora do lugar dava uma feição surreal ao rosto, como um retrato executado por um pintor expressionista. Os olhos exibiam uma expressão inescrutável.

Em minutos chegou a Profª Lucrécia, diretora da escola, acompanhada pela Dona Maria da Comlurb. Aos berros, como sempre. "Saiam daí! Agora! Todo mundo pra sala! Todo mundo pra sala!". Os alunos debandaram apavorados. "Dona" Lucrécia conduzia aquela escola com mão-de-ferro, temida por alunos, funcionários e professores. Todos ali já haviam testemunhado explosões coléricas daquela senhora aparentemente frágil. Mesmo assim, era uma situação atípica - a garotada se afastou, mas não obedeceu por completo. Na verdade, cada vez mais alunos engrossavam o grupo. Estavam em polvorosa, ora bolas! Alguns professores vinham chegando também, inclusive a Profª Isabel, diretora adjunta.

Lucrécia estava abaixada junto ao cadáver de Júlio. Pôs a mão sobre seu peito, para ver se respirava. Constatou o que já era óbvio. Morto. "Isabel!" - gritou - "Chame a Guarda Municipal e a Polícia! Agora!"

A diretora adjunta correu para a secretaria da escola.