sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Cap. 10 - Um menino de coragem

Levinson continuava de pé, ofegando como uma fera acuada, ainda um tanto aturdido do ataque inesperado. Havia um bebedouro de galão no canto da sala dos professores. Duarte serviu ao menino água gelada em um copo descartável e ajeitou as cadeiras derrubadas na confusão, convidando o aluno a sentar-se novamente.

Após um profundo suspiro e uma pausa um tanto dramática, Levinson encarou o detetive com um olhar agoniado e repetiu: "É tudo mentira, tio"! O policial dirigiu ao garoto um sorriso encorajador e pediu: "Me conte a verdade, então. Kerollainy realmente empurrou o professor"? O menino olhou para o chão, constrangido, e sacudiu a cabeça afirmativamente, em silêncio. "Então qual é a mentira"?

"A Kerollainy, ela não é uma aluna ruim, não é bagunceira. Ela é amiga da Jessilaine". "Jessilaine"? "Minha irmã, elas estudam na mesma turma. A Kerollainy é muito estudiosa, só tira nota boa. Ela é toda quietinha, sabe. Esses moleque tavam mentindo porque a diretora mandou. Ela disse que a gente tinha que falar isso, senão ia expulsar a gente. Falou também que se a gente não mentisse pra você, ia botar a gente nesses negoço aí de desacato ao professor público". "Ao funcionário público", corrigiu o detetive. "Isso, essas parada aí, tio! Esses moleque são tudo cagão"! "Você é muito corajoso. Parabéns, é uma grande virtude".

Levinson ficou encabulado com o elogio. Um tanto tímido, falou: "Tio, a Kerollainy é legal pra caramba! Ela é a melhor amiga da minha irmã. Ela vai quase todo dia lá em casa pra estudar com a Jessilaine. A Jessilaine é meio burrinha, sabe? Mas aí a Kerollainy ajuda ela, porque ela é muito esperta. Eu fico lá junto com elas conversando. Eu acho ela linda demais"... Duarte logo percebeu que Levinson tinha uma quedinha pela menina, mas não estava mentindo. Se quisesse enganar o detetive, teria desmentido o empurrão na escada.

"Me disseram que ela tinha problemas com o Prof. Júlio", provocou o policial. "Ele perseguia a Kerollainy, tio! De graça, ele sempre arrumava um caô pra botar ela de castigo depois da hora. Dizia que ela tava falando na hora da aula. Aqui a gente não pode falar nada, nada! Geral fica até com medo de fazer pergunta e ir pro castigo! Aí ele sempre inventava que tava ouvindo a Kerollainy. Ele faz isso também com a Maria Eduarda, da minha turma". "Você também é aluno do Prof. Júlio"? "Ele dá aula pra minha turma, sim. Dava aula"... "Você acha que ele era um bom professor"?

Levinson fez uma careta de desaprovação: "Ruinzão! A aula dele é chata pra caaa...raca. Ninguém aprende nada com ele. E ele ainda fica ensinando parada de igreja que não tem nada a ver". "Coisas de igreja"? "É, negoço de Ave Maria, Pai Nosso; todo mundo tem que rezar no começo da aula. Pô, eu não gosto disso, não. A gente somos crente lá em casa. Uma vez ele passou um trabalho que a gente tinha que fazer lá uma cruz, com aquelas parada de ângulo reto, essas coisa assim, mas tinha que depois colar um desenho de Jesus em cima, assim. Aí eu não fiz e ele me deu zero". Duarte se perguntava que parte da escola laica era tão difícil entender; sua ex já tinha falado de situações assim na escola onde trabalhava.

"Você gosta de estudar aqui, Levinson"? "Eu?! Não! Eu gostava da minha escola antiga, a tia era muito legal. Mas aí minha mãe arrumou vaga aqui, dizem que é a escola melhor do bairro, mas eu acho uma droga! Não pode fazer nada, essa diretora é cheia de história pra cima da gente! Ela grita com os aluno, grita com os professores! A dona Isabel também é chatona. No começo do ano tinha um professor maneirão, o Prof. Gilson, de História. Mas aí ele brigou com a Dona Lucrécia e foi embora, ela nem deixou ele se despedir da gente. Ela disse que ele ia ser mandado embora, porque ela mandou lá na CRE demitirem ele. Mas é caô, porque o meu vizinho estuda lá numa outra escola, a Roberto Gomes, que tem lá do outro lado da linha do trem. Aí ele tá dando aula lá. Sorte deles".

Duarte agradeceu ao menino e ofereceu mais um copo d`água, que ele tomou lentamente, em silêncio. Levinson se levantou e caminhou até a porta. Parou por um instante, e voltou-se para o policial: "Tio, a Kerollainy vai pra cadeia"? Duarte olhou seriamente para o menino, sentindo o peso do universo sobre o peito: "Não sei. Não sei... Espero que não".

Lágrimas silenciosas rolaram pelo rosto de Levinson. O garoto saiu sem se despedir.

3 comentários:

  1. Levinson está se tornando meu personagem favorito! Estou gostando muito de criá-lo!

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  2. Engraçado, você diz que é uma obra ficcional; mas, infelizmente, eu reconheci uma série de situações que são exatamente iguais à uma realidade que vivi.

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