segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cap. 9 - As testemunhas

Duarte entrou na sala dos professores. Três meninos estavam sentados à mesa, muito quietos. Um deles era bem baixinho e mirradinho; trazia a expressão um tanto emburrada, enquanto seus colegas aparentavam grande nervosismo. O detetive cumprimentou silenciosamente os meninos, acenando com a cabeça. Antes de se sentar para a conversa, percorreu as paredes da sala, examinando os curiosos papéis afixados nos murais, que diziam bastante sobre a vida naquela escola.

Sentou-se, com expressão muito séria. A melhor coisa a fazer ali seria deixar os meninos falarem livremente; a verdade iria emergir sem grande dificuldade, imaginou. O detetive e os alunos se apresentaram rapidamente. O menorzinho emburrado se chamava Levinson, e estudava no 6.º ano; outro era gorducho, se chamava Pedro Henrique e estava no 7.º, na mesma turma de Kerollainy, 1702; o terceiro era Maicon, estudante do 9.º ano.

Duarte sorriu ambiguamente: "Sou todo ouvidos, meninos". Quase um minuto de tenso silêncio se passou até que Pedro Henrique disparasse: "Foi a Kerollainy, seu guarda! Foi ela que empurrou o Prof. Júlio da escada!"

"Foi mermo, detetive! A gente viu tudo, né"? - acrescentou Maicon - "Arrente távamo no corredor, entrano nas sala, aí ela impurrô o professor"!

Pedro Henrique interrompeu: "Mas antes eles tavam falando umas paradas, tipo assim, conversando! Aí a Kerollainy ficou toda nervosinha e empurrou o professor"! Levinson estava quieto, aparentemente ficando cada vez mais irritado; Duarte reparou o quanto sua fisionomia ainda era infantil.

"Aí o professor foi se estabacano da escada, bateno tudo, tudo! Aí arrente desceu correno pra ver como é que ele tava. Aí juntou o galerão em volta pra olhar. Eu nem consegui ver a cara dele, falaro que tava bizarro! Aí do nada chegou a diretora gritano parrente, aí saiu geral correno" - complementou Maicon.

Pedro Henrique encerrou o relato: "Depois que o Prof. Júlio caiu, a Kerollainy continuou lá em cima da escada, paradona, com a cara meia estranha". Duarte observou atentamente a expressão dos três. Maicon e Pedro Henrique pareciam exaustos, como se tivessem acabado de completar uma maratona. O pequeno Levinson parecia a ponto de explodir. Após breves instantes de reflexão, o detetive resolveu seu próximo passo:

"Como é o comportamento dessa Kerollainy? Ela é boa aluna"? Maicon e Pedro Henrique ficaram visivelmente tensos, e trocaram um olhar indeciso; Pedro Henrique tomou a iniciativa novamente: "Não é não, seu guarda! Essa menina não quer nada, fica só de fofoquinha e de malcriação com os professores". Maicon concordou: "É, ela fica respondeno os professores, vive de cartigo"! "Ela não estuda, não copia matéria, não faz trabalho, só tira nota ruim...", prosseguiu Pedro Henrique.

Maicon abria a boca para falar alguma coisa, quando foi interrompido por um grito: "Tudo mentira, tio! Não acredita neles, não"! A reação de Levinson foi exatamente aquela imaginada por Duarte.

"Cala a boca, moleque"! - repreendeu Pedro Henrique, seguido por Maicon: "Tá maluco, neguim"?! Os dois pareciam aterrorizados.

"Tô maluco nada, seus mentiroso! Eu num tenho medo dessa mulé, não, seus viadinho! Ainda vou falar um palavrão pra ela"! - Levinson berrava exaltado - "Eu odeio essa escola"!

Pedro Henrique dirigiu um olhar quase suplicante ao detetive: "Ele tá de palhaçada, seu guarda! Esse moleque é maluco"! Quase paralisado de pânico, Maicon suava em bicas, apesar do ar condicionado.

"Tio, me ouve, por favor! Eu tô falando a verdade! A Kerollainy é nerd, ela é amiga da minha irmã! Foi a diretora que mandou a gente mentir, tio! A Kerollainy só tira notão"! - Levinson olhava o detetive no fundo dos olhos, exibindo a coragem dos justos. Nesse momento, Maicon saiu subitamente de sua imobilidade. "Calaboca"!!! O rapaz do 9.º ano se abateu violentamente sobre Levinson; os dois caíram no chão, se engalfinhando! Pedro Henrique olhava atônito, com olhos do tamanho da lua.

Duarte agiu rapidamente, agarrando Maicon pelo braço e erguendo-o do chão; caindo em si, o garoto começou a chorar desesperado. Levinson se levantou enfurecido, com a blusa rasgada, pronto para atacar o colega mais velho. O policial estendeu a mão em sua direção: "Chega, Levinson! Está tudo bem. Maicon e Pedro Henrique, saiam, por favor. Quero conversar sozinho com o Levinson".

O detetive abriu a porta com um gesto convidativo; os dois meninos se retiraram com ar derrotado. Maicon chorava copiosamente, murmurando: "Minha mãe vai me arrebentar"... Duarte fechou a porta. Levinson ainda estava parado de pé, ofegante. "Pronto, meu caro. Agora, vamos ouvir a sua versão da história"!

Um comentário:

  1. A linguagem dos alunos está perfeita, LF!
    Estou ansiosa pelo próximo capítulo, Levinson é corajoso demais!!!

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