Duarte acabara de retornar ao pátio interno quando a Prof.ª Isabel, diretora adjunta vinha a seu encontro. "Aqui está a ficha da culpada! A Prof.ª Lucrécia pediu para lhe entregar".
O detetive encarou Isabel por alguns segundos: "A senhora quis dizer suspeita, não? Todos somos inocentes até que se prove o contrário". A diretora adjunta corou, mas retorquiu: "De qualquer modo, aqui está a ficha completa da suspeita, com o caderno de ocorrências da turma dela". Duarte apanhou o caderno e o envelope de papel pardo onde se lia a esferográfica, em caracteres de imprensa: "KEROLLAINY DOS SANTOS". Isabel olhava com sua postura mais ereta que uma régua escolar enquanto ele abria o envelope, de onde retirou um formulário com os dados da aluna.
O policial fez uma rápida leitura das informações mais relevantes. "Nome completo: Kerollainy dos Santos; Data de nascimento: 27/02/2001; Cor: Parda; Filiação - Mãe: Marina dos Santos; Escolaridade: Ensino fundamental incompleto; Profissão: Vendedora; Pai: José Carlos dos Santos; Escolaridade: Ensino fundamental incompleto; Profissão: Pedreiro". Uma foto 3x4 tirada alguns anos antes mostrava uma adorável menininha sorridente, com um dente de leite faltando.
O detetive prosseguiu abrindo o caderno onde as ocorrências de indisciplina da turma 1702 deveriam ser registradas. Os nomes dos alunos encimavam as folhas em etiquetas impressas, seguindo a ordem de chamada. As páginas se encontravam rigorosamente em branco, o que não espantava, numa escola onde o medo era regra. A única exceção era a ficha de Kerollainy, onde diversas ocorrências escritas com a mesma caligrafia e a mesma caneta recheavam duas páginas e meia. Registros como:
"15/03/13
A aluna desrespeitou o professor durante a aula.
Prof. Júlio - Matemática"
"10/05/13
A aluna se recusou a obedecer uma ordem do professor, desacatando-o e rindo.
Prof. Júlio - Matemática"
"23/05/13
A aluna desrespeitou a autoridade do professor durante a aula.
Prof. Júlio - Matemática"
E mais dezessete ou dezoito variantes do tema, sempre assinadas: "Prof. Júlio - Matemática".
"Parece que ela só tinha problemas com o Prof. Júlio", comentou casualmente o detetive.
"Sim, de fato".
"Mas não era um dos 'melhores' professores da escola? Temido por todos os alunos?"
Isabel gaguejou: "S-sim, mas há exceções. Essa menina é particularmente... terrível".
Duarte sorriu, intrigado. Nesse momento notou que havia outra folha no envelope. Era um boletim escolar. A frequência de Kerollainy era impecável, nenhuma falta no ano inteiro. Já as notas eram bastante ruins, sempre baixas. Em Matemática seus resultados eram particularmente ruins: 2,5 (primeiro bimestre), 4,5 (segundo bimestre) e 3,0 (terceiro bimestre).
Mas o detetive tinha uma sensação estranha, mas logo se deu conta. O papel. Estava quente. "Acabou de sair da impressora", refletiu Duarte, franzindo levemente o cenho.
Isabel pigarreou: "As testemunhas estão prontas, aguardando na sala dos professores. Quando o senhor quiser..."
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