Duarte se sentou em frente à mesa da diretora. O gabinete era um ambiente asséptico - quase ascético, na verdade. As paredes eram brancas, exibindo apenas quadros com reproduções de paisagens famosas. Num canto, uma estante de livros, impecavelmente arrumada. No centro, a mesa da diretora, sobre a qual repousavam pilhas de papel perfeitamente ordenadas, um porta-lápis, uma régua, uma pequena calculadora, um telefone e uma Bíblia. E também um prato de sobremesa com doce de abóbora.
A velha senhora sentou-se de frente para o detetive, ereta em sua cadeira, numa postura quase estática - ou extática, talvez. Durante alguns segundos contemplou silenciosamente o detetive, com um olhar aguçado, como se tentasse ler seus pensamentos; ou melhor, como se esperasse controla-los. Ao contrário da diretora adjunta, Lucrécia vestia-se com elegância praticamente monástica.
O detetive não demorou a perceber que a diretora pertencia ao gênero de pessoas que desejam ter absoluto controle sobre todas as situações, ou ao menos precisam ter a ilusão de domina-las. O tipo de gente que não aceita a mínima contrariedade. Num primeiro momento, concluiu o policial, seria melhor agir como se ela fosse realmente a dona do jogo; ela cooperaria melhor se não sentisse ameaçado seu poder sobre aquela escola.
Assim sendo, aguardou por quase um minuto, até que Lucrécia iniciasse seu breve monólogo, articulando as palavras em tom pausado e firme:
"Antes de tudo, senhor detetive... - Duarte? - gostaria de esclarecer algumas coisas. Essa não é uma escola comum. Não é uma escola municipal como qualquer outra. Essa é a MELHOR escola da nossa CRE; uma das melhores escolas em TODA a rede municipal. Temos as melhores notas, os maiores índices de aprovação. A Secretaria de Educação reconhece a qualidade do nosso trabalho. Dirijo essa escola há nada menos que vinte e três anos. Vinte e três anos! Me orgulho - e MUITO! - do que construí aqui durante esse tempo.
Minha escola é uma escola de VALORES. Aqui formamos cidadãos. Transformamos essas crianças pobres em cidadãos de verdade. COMIGO elas aprendem a respeitar as autoridades. Transformamos potenciais bandidos e viciados em pessoas de bem. Não toleramos erros. Não toleramos IMORALIDADE. Todos aqui obedecem as REGRAS.
Podem me chamar de elitista. Podem me chamar de racista. Podem me chamar de linha dura. Não me importo. É assim que eu sou.
O mesmo vale para os professores. Professor vagabundo não trabalha aqui. Não se cria comigo. Ou tem compromisso com o trabalho, ou vai embora. É por isso que NUNCA temos problemas nessa escola. Nossa disciplina é rígida, mas FUNCIONA. O senhor não encontrará muitas escolas assim na rede. Não vai mesmo!
Quero que o senhor preste MUITA atenção ao que vou lhe dizer agora. O que aconteceu hoje, esse... incidente... é um caso isolado. Estamos tão perplexos quanto o senhor. Mas fique certo de uma coisa: a responsável será punida! NINGUÉM faz uma coisa dessas na MINHA escola e escapa impune"!
Duarte se sentiu tratado como se fosse um dos alunos da Escola Municipal República de Genosha. Precisou segurar sua vontade de rir.
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