Guiado pela Prof.ª Isabel, Detetive Duarte logo chegou ao pátio interno onde estava o cadáver, ao pé da escada da qual degringolara horas antes. Dois guardas municipais vigiavam o corpo, coberto por uma estranha mortalha: um grande pedaço de TNT azul, decorado com peixinhos e letras de EVA que diziam: "VIVA A NATUREZA!!!". Um dos inconvenientes de se morrer numa escola...
Duarte se apresentou rapidamente aos guardas e se abaixou ao lado do cadáver; levantando parcialmente a mortalha improvisada, o detetive pôde ver o rosto terrivelmente contundido pela queda. Percebia-se que era um homem de seus quase quarenta anos, com alguns fios grisalhos em meio aos cabelos pretos. O pescoço estava completamente retorcido e inclinado em ângulos quase sobrenaturais. A mandíbula fraturada e deslocada deixava a boca entreaberta com uma expressão grotesca, começando a exalar um odor desagradável da putrefação que iniciava nas entranhas do professor. Um corte superficial riscava a testa e parte do couro cabeludo; estranhamente pouco sangue escorrera dali; em condições normais, o ferimento teria banhado o cadáver, o chão... tudo, enfim. Duarte se perguntava se a torção do pescoço teria dificultado o fluxo sanguíneo para a cabeça; mas cabia ao legista responder essa questão. Quando chegariam os peritos?
O detetive cobriu novamente o rosto torturado. Se ergueu e, após alguns segundos de reflexão, perguntou a Isabel: "E então, Prof. Júlio lecionava Matemática, não é"?
"Sim..." respondeu a professora, acrescentando após alguns segundos: "Um de nossos melhores professores. Os alunos tinham muito medo dele..."
"Medo?! E isso é bom?" - estranhou o detetive.
"Os alunos precisam respeitar as autoridades, detetive".
"Me desculpe discordar, mas medo e respeito são coisas diferentes".
"Será?" - retorquiu a diretora adjunta. E então, após longos segundos de silêncio, com ar misterioso, ergueu o indicador. "Por favor, ouça, detetive..."
Duarte prestou atenção. Não ouvia nada. Fechou os olhos, concentrando-se. Começou a perceber um ligeiro murmúrio, um som abafado, contido, quase além dos limites da audição. Na melhor das hipóteses, um zumbido confuso. O silêncio não era tão absoluto quanto pensava. Não pôde conter sua surpresa: "Os alunos ESTÃO em sala de aula"?!?
Com um sorriso triunfante, a diretora adjunta redarguiu: "Não é linda a música da disciplina?"
Adorei o desfecho do capítulo!
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