Saindo da sala da diretora, Duarte fez um breve reconhecimento do primeiro andar. Desembocavam no pátio interno o corredor conduzindo à direção e à sala dos professores, as portas da sala de informática e do auditório, os banheiros de alunos e a entrada do refeitório, que conduzia à cozinha. Num dos cantos, um corredor levava ao pátio externo, enquanto dos dois lados havia escadas para o segundo andar; ao pé de uma das escadarias jazia o corpo do Prof. Júlio, em seu afogamento a seco. O detetive abriu sua caderneta e esboçou rapidamente uma planta baixa do térreo. Logo em seguida, tomou a escada (sem cadáver) para o andar superior.
Os corredores estavam vazios, excetuando as reproduções de quadros famosos que pareciam infestar obsessivamente todas as paredes daquela escola, como se a arte de pintores ilustres objetivasse ocultar alguma coisa. Aqueles quadros eram máscaras atrás das quais a escola inteira se escondia. Todas as salas de aula tinham suas portas fechadas, exibindo apenas uma plaquinha numerada. Atrás de cada porta se ouvia apenas a voz abafada de um professor falando a uma turma de alunos mudos. O silêncio povoado por sussurros fazia Duarte se perguntar se era um vivo contemplando um mundo de mortos, ou um morto isolado do mundo dos vivos. Os corredores não tinham nenhuma janela, sendo inteiramente iluminados por lâmpadas elétricas. Era o tipo de ambiente que rouba algumas camadas de solidez à realidade.
Chegando a uma curva do corredor, Duarte percebeu uma porta entreaberta, cuja placa dizia: "Sala dos Castigos". O detetive espiou pela fresta, e viu que a sala tinha apenas uma mesa com meia dúzia de cadeiras em volta. Um menino de seus doze anos estava sentado à mesa, escrevendo alguma coisa freneticamente. Resolveu entrar: "Oi, tudo bem"? O menino lhe dirigiu apenas um olhar ressabiado, logo retomando sua atividade. Aproximando-se, o policial pôde perceber o que o garoto fazia: várias folhas exibiam cópias apressadas do Hino Nacional. O único adorno da sala era um cartaz em cores patrióticas, que dizia: "SEM ORDEM, NÃO HÁ PROGRESSO".
"Está de castigo"?
Assustadiço, o menino apenas balançou a cabeça afirmativamente.
"O que houve"?
"Eu falei".
"Vocês aqui não podem falar?"
O garoto balançou a cabeça, confirmando novamente.
"Nunca?! Vocês não podem fazer perguntas aos professores"?
"A gente pode. Mas todo mundo tem medo".
"Medo de quê"?
O menino baixou os olhos.
"Da diretora Lucrécia"?
O aluno fez que sim, sem erguer a cabeça.
"Ela é muito brava"?
O garoto olhou nos olhos do detetive por alguns segundos e então, lentamente, passou o dedo em riste sobre o pescoço, como se o estivesse cortando. Depois, como se nada tivesse acontecido, retomou sua frenética tarefa. Quantas cópias do hino ainda faltavam?
O silêncio e o medo são grandes amigos.
"SEM ORDEM, NÃO HÁ PROGRESSO". kkkkkkk
ResponderExcluirLembrei de um colega nosso!