sábado, 9 de novembro de 2013

Cap. 4 - Costas quentes

Duarte sentou em uma cadeira no corredor em frente ao gabinete da diretora, enquanto aguardava que terminasse seus telefonemas. Aproveitou aqueles momentos para observar o ambiente. Decididamente era uma escola estranha. O silêncio nervoso, sublinhado por murmúrios incompreensíveis, comunicava uma impressão fantasmagórica ao detetive. Era um silêncio de cemitério, mas cemitério mal-assombrado...

O corredor que dava acesso do pátio interno às salas da direção, coordenação e de professores era duplamente bloqueado por um balcão e um biombo de madeira. Aos alunos era vedado não apenas transitar naquele espaço, mas também enxergá-lo. Contudo, como bem observou Duarte, o biombo era posicionado estrategicamente, permitindo que os professores observassem o pátio sem ser vistos.

"Os estudantes nunca sabem quando estão sendo vigiados ou não", refletiu o detetive. Lembrou-se de um livro que tinha lido, Vigiar e punir, de Michel Foucault. "Uma escola panóptica! Então, os garotos são vigiados... e punidos"?! O estranho silêncio começava a fazer sentido...

O detetive voltou então sua atenção à parede em frente, onde havia um mural coberto de fotografias. Quase uma centena, segundo a estimativa de Duarte. O policial se levantou para ver as fotos de perto. Uma mulher aparecia literalmente em todas elas. Era sem dúvida a Profª Lucrécia, diretora da escola. Em muitas das fotos figurava a seu lado Isabel, a diretora-adjunta. Outro rosto constantemente estampado nas imagens era o do recém-falecido Prof. Júlio. Duarte se lembrou do comentário de Isabel; o professor era, evidentemente, muito próximo da direção.

No entanto, as fotografias também exibiam muitos ilustres visitantes. Ali estavam, sem falta, os prefeitos do Rio de Janeiro nos últimos vinte anos, sempre sorridentes ao lado da diretora. Duarte também pôde reconhecer algumas secretárias de Educação, de que se lembrava devido à ex, que lecionava numa escola municipal. O mural evidenciava não apenas que Lucrécia tinha relações importantes, mas que fazia questão de deixar isso muito claro para seus funcionários. Simples narcisismo ou estratégia de intimidação?

Perdido em seus pensamentos, Duarte não reparou a porta do gabinete se abrindo. Ouviu apenas o barulho estridente de uma colher se chocando nervosamente contra um prato. À porta, com uma postura arrogante, encontrava-se a mulher das fotos, a diretora. Com ar autoritário, dirigiu-se ao detetive: "O senhor gostaria de doce de abóbora"?

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